Confira artigo de Cesar Meireles, Presidente da Abol e coordenador do Fórum Regional Centro-Oeste sobre a pandemia, um marco disruptivo que mudará o mundo para sempre

Chegamos diante de uma verdadeira débâcle institucional. O egoísmo coletivo não funciona mais! Faz-se mister a elevação da consciência em todos os sentidos e em toda a sociedade, fazendo-se imperativa, portanto, a regeneração das relações entre as pessoas dentro de uma nova ordem social.

Se isso vale para a vida cotidiana, vale ainda mais para o mundo corporativo. Buscando tecer paralelos entre o Brasil e os demais países, sobretudo na nossa atividade, nas cadeias de abastecimento, logística empresarial e distribuição, ainda que seja necessário salvaguardar as idiossincrasias e características das nações, a toada tem sido a mesma: o coronavirus não é apenas uma crise de saúde pública de incalculáveis proporções é, também, uma ruptura de modelos, evidenciando a necessidade de reestruturação da ordem econômica global!

Em primoroso artigo escrito em março último, Kevin Sneader e Shubham Singhal da consultoria McKinsey & Company, teorizam o que viriam a ser as organizações e o supply chain após o coronavírus, na tentativa de prever o período pós-viral: o que poderia vir a ser considerado o “próximo normal”!

Na análise, eles ponderam que, nesta nova realidade sem precedentes, testemunharemos uma reestruturação dramática da ordem econômica e social em que os negócios e a sociedade operam tradicionalmente, afirmando que, em futuro próximo, veremos o início de discussões e debates sobre o que o “próximo normal” poderia acarretar.

Para responder às inquietações do momento, entendem os autores que se deve agir em cinco estágios (5 Rs), desde a crise de hoje até o “próximo normal” que emergirá após a batalha contra o coronavírus.

O primeiro estágio, o da Resolução, resume-se nas ações que a maioria esmagadora das nações estão empreendendo, i.e., guerra declarada contra o vírus, garantindo o isolamento social, expandido a capacidade instalada dos leitos hospitalares, aparelhando-os com respiradores, promovendo testes em larga escala, provendo corpo técnico para dar a devida cobertura à larguíssima extensão da crise. Em paralelo, cuidando para que a higiene seja redobrada, que novos hábitos sejam seguidos, como os de lavar sistemática e frequentemente as mãos, uso de álcool em gel, de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), como luvas, máscaras etc., sejam cumpridos.

No que concerne à continuidade da economia, empreender todos os esforços possíveis para que os serviços essenciais não sofram solução de continuidade. Transportes, suprimentos diversos como medicamentos, insumos para a indústria farmacêutica, máquinas e equipamentos para os hospitais, alimentação para a população e tudo o mais que se encaixar no conceito de serviços e produtos essenciais. Como a inevitável questão de se agir prioritariamente pela saúde humana vis-à-vis a desaceleração da economia, o primeiro “R”, resume bem a necessidade de determinar a escala, o ritmo e a profundidade das ações necessárias nos níveis de Estado e empresarial.

A forte retração na atividade econômica, necessária para proteger a saúde pública, está comprometendo, como esperado, no Brasil e alhures, simultaneamente, o bem-estar dos cidadãos e das instituições. A imperativa busca por soluções que atendam aos desafios de liquidez e solvência que atingem vários setores está se mostrando resistente aos esforços tanto do Governo Federal, quanto dos governos estaduais, para manter o sistema financeiro preservado. A crise de saúde pública, portanto, está se transformando em crise financeira, já que a incerteza quanto ao tamanho, duração e forma do declínio do PIB e do emprego prejudica o que resta da confiança das empresas. A resiliência dos empresários e demais stakeholders, portanto, faz-se fundamental para vencer este período.

Resiliência é, portanto, a segunda etapa teorizada, pelos autores da Mckinsey & Company.

Pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT) no Brasil, realizada entre os dias 1º e 3 de abril, publicada no último dia 06/04, deu conta dessa realidade, conquanto mostra que 85,3% das empresas pesquisadas registram redução na atividade em março p.p.. Ademais, das empresas entrevistadas, 70,7% já enfrentam problemas de caixa, comprometendo a realização de pagamento de salários, impostos e fornecedores. O estudo mostra ainda que 53,7% dessas empresas, dispõem de recursos para no máximo um mês de operação, sendo que, os 28,2% das empresas pesquisadas, não chegam a 30 dias sem aporte financeiro externo.

Na análise dos consultores da McKinsey & Company, mesmo vivenciando a extremada situação, faz-se necessário conceber a Retomada, dado que esta fase vai acabar e faz-se necessário estar-se preparado para reativar toda a cadeia de suprimentos, visando atender à retomada das cadeias produtivas. O ponto mais fraco da cadeia determinará o sucesso ou não de um retorno à recontratação, treinamento e obtenção de níveis anteriores de produtividade da força de trabalho. Manter empregos, significa estar preparado para a retomada. É ter o time pronto, treinado, e em campo, motivados para a retomada do campeonato!

Os empresários devem reavaliar todo o sistema de negócios e planejar ações contingenciais para retornar seus negócios à produção efetiva em ritmo e em escala necessárias e adequadas às demandas da paralização decorrentes.

Independentemente de qual estágio venhamos estar quando do fim da crise viral, o certo e inquestionável é que os costumes, os hábitos e as atitudes das pessoas terão mudado. Nunca o e-commerce, o delivery e as soluções de entrega digital foram tão demandadas. O uso da tecnologia, passou e continuará sendo um caminho sem volta! A migração do business-to-business para o business-to-customer, torna-se uma realidade irreversível. Os hábitos de mobilidade, de deslocamento urbano, o reencontro do ser humano com seu espaço, utilizando-se eficiente e eficazmente do home-office; o incremento das salas virtuais de conferência, a explosão de cursos online e a distância, mudarão o curso da educação básica e profissional.

O quarto estágio, o da Reimaginação, representado pelas mudanças radicais, com impulsos disruptivos, e seus impactos sobre como vivemos hoje, durante o isolamento, e como passaremos a viver nesse futuro de curtíssimo prazo, uma etapa efetiva de repaginação, determinará o que virá a ser o “próximo normal”. As instituições, as organizações e as empresas que se reinventarem para aproveitar ao máximo a melhor visão e previsão desta nova ordem mundial terão sucesso desproporcional.

A crise irá revelar não apenas vulnerabilidades, mas oportunidades para melhorar o desempenho e o sucesso dos negócios de amanhã. O mundo, e o Brasil, precisarão, como vimos, promover uma profunda revisão de seus conceitos, necessitarão, portanto, de um grande projeto de reinvenção estrutural. Aqui, resume-se a quinta e última etapa, a da Reforma!

É provável que os governos se sintam encorajados e apoiados por seus cidadãos para assumir um papel mais ativo na formulação de políticas públicas, sintonizadas com a atividade econômica. Os líderes empresariais precisarão antecipar mudanças de políticas e regulamentações apoiadas popularmente, à medida que a sociedade procura evitar, mitigar e antecipar uma futura crise de saúde pública semelhante a que enfrentamos hoje.

Para tanto, uma mudança estrutural far-se-á necessário! Não é crível que a sociedade pós viral conforte-se com a continuada e crescente concentração de renda e ausência de políticas públicas voltadas às soluções de base, as quais, da forma com que se estruturaram, tornam o Brasil vulnerável, detentor do ambiente perfeito para que epidemias se alastrem rapidamente.

O Brasil vem investindo ínfimos recursos em infraestrutura, sobretudo em saneamento básico. Não é coincidência que os mesmos brasileiros que serão beneficiados com os R$600,00 emergenciais, são os mesmos que não têm acesso ao esgotamento sanitário! Apenas metade da população brasileira tem acesso à coleta de esgoto (50,3%), o que significa dizer que mais de 100 milhões de pessoas (os brasileiros “invisíveis”) lidam de maneira alternativa com os despejos (fossas e descarte direto nos rios e matas).

A fronteira Covid-19 abrirá novas discussões! Continuará aceitável ser o Brasil o segundo país mais concentrador de renda do mundo, ficando apenas atrás do Catar? O 1% dos mais ricos do país concentra 28,3% da renda total, conforme ranking sobre o desenvolvimento humano. Isso significa que um terço da riqueza gerada no Brasil está restrita a dois milhões de pessoas!

Na última medição do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), em 2019, o Brasil ficou na 79ª posição junto às 189 nações, empatado com a Colômbia. Dos países da América do Sul, Chile ficou com o primeiro lugar, na 42ª posição no geral; a Argentina, em segundo lugar, na 48ª. posição e, o Uruguai, em terceiro na América do Sul, ocupando a 57ª. posição geral.

A reforma do sistema deve contemplar mudança de paradigmas, de estratégias, olhar voltado ao longo prazo! Mais relevante seria termos o achatamento da diferença abissal entre as camadas sociais, do que depararmo-nos, uma vez mais, diante da necessidade de achatarmos a curva de contaminados por uma nova epidemia global.

A logística provou ser uma atividade essencial, não só em momentos de normalidade econômica, suprindo todas as cadeias produtivas, mas, sobretudo em momentos de guerra, pois nesse ambiente, é ela que bem conhece o terreno, as práticas e as competências necessárias para levar o fundamental a todos os cidadãos.

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