Head de Inovação de Suape relata experiências e diz que universo portuário precisa compreender o modal digital para se antecipar às mudanças no futuro

O Complexo Industrial Portuário de Suape, em Pernambuco, desenvolve desde o início de 2019 um programa disruptivo de inovação com equipe interna própria, parceria com o Porto Digital e criação de um ecossistema envolvendo universidades, startups, profissionais de meio ambiente e a comunidade local das cidades de Ipojuca e Cabo de Santo Agostinho. O head de inovação do Complexo, Ed Dantas, comanda esse processo estruturado e foi convidado pelo Brasil Hack Export para falar sobre as recentes experiências de inovação aos Conselheiros e patrocinadores da maratona online de desenvolvimento tecnológico. Dantas explicou que, embora seja um porto jovem, Suape tem um processo de inovação acelerado. “O modal digital ganhou importância em tempos de pandemia, mas esse trabalho vem sendo realizado aqui de forma consistente, mesmo em gestões anteriores ao programa de inovação”. A moderação da videoconferência coube ao presidente do Conselho do Brasil Hack Export, Angelino Caputo e Oliveira.

A direção do Complexo optou por criar um centro de excelência totalmente dedicado a buscar inovação. Cinco andares do edifício-sede de Suape estão destinados à construção de laboratórios e parcerias com startups e entidades universitárias. “O Suape Projeta é um modo de busca de inovação continuada e com processo, afinal inovação não está pronta e não pode ser comprada em prateleira”, detalhou Dantas. A tecnologia, disse ele, é o meio de resolver problemas, não resolve de fato qualquer situação. Por isso, criar um sistema interno com capacidade de potencializar a inteligência do Porto foi uma decisão fundamental tomada pela atual gestão do Complexo.

Um relevante orçamento de R$ 3.366.000,00 foi reservado para investimentos no ambiente transformacional do Porto somente neste ano. “Abrimos oportunidades conectadas com o Porto Digital para acelerar o sistema neste ano de 2020. Conseguimos triplicar meu time de inovação em Suape, que era de apenas 3 pessoas. Esperamos alcançar uma maturidade já nos próximos anos com o desenvolvimento de nossa rede de parceiros que atuam com inovação aberta e descentralizada”. Segundo Dantas, é preciso que os profissionais do universo portuário consigam olhar para além dos modais terrestre e marítimo, com os quais estão habituados a trabalhar, e entendam as nuances do modal digital planejando a construção de fluxos de informações.

Em três encontros denominados matchdays realizados em 2019, uma amostra relevante de startups se apresentou para gestores de companhias instaladas no Complexo de Suape. No total, foram 28 empresas sensibilizadas e 25 grupos de oportunidades lançados no ecossistema em ambiente de imersão. “Dentro do Porto Digital existe uma consolidada cadeia de fomento e de investidores. Agora buscamos desenvolver dentro do território de Suape o cliente anjo, ou seja, aquele que fará a primeira aquisição de uma inovação”.

Em maio deste ano Suape anunciou a contratação, durante webinar promovido pelo Brasil Export, do Núcleo de Gestão do Porto Digital (NGPD), por meio do qual startups e empresas do parque tecnológico identificarão desafios e buscarão soluções digitais que otimizem tempo e recurso nas atividades de gestão portuária. Poderão ser contratadas, via encomendas tecnológicas ou por outros modelos de contratação, até 10 startups que vão trabalhar os desafios nas seguintes esferas: sistema portuário, sensoriamento, digitalização, transparência e inteligência de Suape.

O processo de inovação tem início com o conhecimento de um problema, que gera uma oportunidade. É fundamental detectar, observou o Head de Inovação, movimentos que possam romper com o mercado tradicional muito antes de efetivamente acontecerem. Como exemplo, usou a queda abrupta, a partir de 2011, do uso da fotografia analógica em relação à fotografia digital, e o protagonismo do Instagram em um setor antes dominado pela Kodak. “Quando um mercado atinge 20% de suas operações no modal digital é possível que já fique tarde para competir com quem desenvolveu primeiro a ferramenta. Nesse sentido, os portos precisam desenvolver o modal digital para entender os modelos de negócios que virão pela frente”.

Capacitar a mão de obra, portanto, é imprescindível, em todos os níveis do condomínio industrial de Suape para alcançar êxito no processo de transformação. Outro fator importante é entender o produto mínimo viável para ajudar a descobrir a inovação que se chegará no futuro. “A ideia não é o mais importante num primeiro momento. É preciso de uma oportunidade para saber que a inovação é possível. Para isso é preciso ter um produto mínimo viável diante do mercado. Estamos criando um passo a passo sobre como avaliar as ideias, fazer a relação de projetos candidatos e priorizá-los”.

Entusiasta de assuntos relacionados a tecnologia e a inovação, o presidente do Porto de Suape, Leonardo Cerquinho, participou do encontro virtual e afirmou que um dos trunfos para o sucesso do programa foi o fato de a equipe de inovação ter conversado com os “profissionais da ponta”, ou seja, aqueles que conviviam diariamente com problemas/oportunidades. “Isso ajudou muito a engajar os funcionários de Suape e das empresas ao redor. Há uma expressão chamada anticorpos corporativos, criados quando se apresentam ideias novas. Quem atua há muito tempo com o mesmo procedimento acaba repelindo novas ideias. Então, quando foi perguntado o que fazer a essas pessoas o processo funcionou de forma melhor, não houve resistência”.

(Texto: Bruno Merlin)